Mirian Monte

Um natal nordestino

 

Escrevi um auto de natal nordestino para os alunos da professora Gláucia Emídio, uma das alegrias  que a minha participação em festas literárias me trouxe, no ano de 2017. Chamei de Cordel teatral. Tem personagens que simbolizam nossa cultura nordestina (pastorinhas, marinheiros, cangaceiros e até Luiz Gonzaga). Postarei, aqui, o texto “Sermão de Luiz”, que descreve em prosa e versos a Natividade. Feliz natal!!!

UM NATAL NORDESTINO – CORDEL TEATRAL – ÚLTIMO CAPÍTULO –  NATIVIDADE (formato de cordel – Meia quadra – Mírian Monte)

 

Um belo dia, desceu do céu um anjo chamado Gabriel;

Veio com a obrigação de surgir em aparição.

Deveria, para a Virgem Maria, fazer uma revelação:

“Maria, darás à luz a Jesus. Assim o Senhor quer”.

 

Maria, que iria se casar com José, chorou de emoção

E, sem titubear, Ela aceitou sua nobre missão.

José, homem de fé, de Maria cuidou, na gestação:

Trabalhava na Carpintaria e os amava com devoção.

 

Ocorre que, naqueles tempos, burocracia já havia

E sem direito a recorrer, tanto José, quanto Maria,

A um Censo tiveram de comparecer, na cidade de Belém.

Maria sentia o seu neném e não foi simples para ninguém!

 

Não havia automóveis, aeroplanos, telefonia,

Para facilitar a vida de José e de Maria.

Levaram os seus documentos, na garupa de um jumento.

Nossa Senhora pegou a estrada, sem pensar no sofrimento

 

Pelo avançar da gravidez, chegara a vez do nosso Rei.

Nossa Senhora pressentia e mantinha sua fé.

Num determinado instante, Maria disse a José:

“O bebê está chegando, não consigo ficar de pé!!”

 

E José correu, procurou uma hospedaria,

Mas ninguém abriu as portas para ele e Maria…

Numa estrebaria, acomodou Maria urgentemente

A José, Nossa Senhora agradeceu humildemente.

 

Às vinte e quatro horas, em vinte e cinco de dezembro,

Um galo cantou fortemente: nascera o Rei minha gente!!

Os anjos, embevecidos, avisaram aos pastores à sua frente!

Todos foram conhecer o rei-menino alegremente.

 

Ovelhas, bois, cavalinhos, testemunharam, de pertinho

E cederam a manjedoura, por obséquio, tal qual presépio!

Maria sorria de alegria e José os acolhia…

Naquela hora, a sagrada família se estabelecia.

 

A Estrela Dalva brilhava; de homens sábios, foi a guia.

Eles conheciam a profecia: a chegada do Messias!

Eram os reis magos e procuravam Jesus, José e Maria…

Dizem que seriam sacerdotes, ou mestres em astronomia.

 

Os reis magos eram três: Gaspar, Baltasar e Belchior,

Sabiam que o recém-nascido faria o mundo melhor

E o presentearam com mirra, ouro e incenso

Ao escolherem os presentes, tiveram muito bom senso

 

Roupinhas de pagão, meia dúzia de fraldas de pano,

Farinha de mingau seriam presentes do mundo atual,

Mas, naquela época, presentear assim era natural

Era moda, era chique, elegante, era a postura ideal.

 

O ouro indicaria a realeza: não há o que explicar.

Já quanto ao incenso, perceba: a explicação está no ar…

Com o Pai, pela fumaça, Ele poderia se comunicar

E de qualquer lugar: do sertão, do agreste e até do mar!

 

Quanto à mirra, uns fizeram birra, por não simbolizar a luz

Representaria a dor de Jesus, seu calvário, a sua cruz.

Mas um rei mago não daria, ao bebê, um “presente de grego”…

Na realidade, a mirra está envolvida num grande segredo:

 

Simbolizava que Jesus viveria eternamente

E nisso eu sou crente: a maior prova são vocês à minha frente

Se vocês me escutaram até aqui nesse repente

É porque o Menino está vivo e vocês não são indiferentes!

 

Têm um quê de razão os que viram, na mirra, a dor de Jesus

O menino, por ser fonte incandescente da mais forte luz,

Apurou a visão de quem não queria enxergar.

Resolveram, no final, que deveriam crucificar.

 

Os homens estavam incomodados com sua presença,

Por inveja, medo, egoísmo, angústia e insolência,

Puseram um fim em sua existência, mas Ele ficou em essência

Vencendo milênios, costumes, distâncias, fronteiras e diferenças.

 

Eles não contavam com a herança de paz, amor, compaixão

Não sabiam que Jesus era verdade, cura e redenção.

Mas vocês não perderam a viagem, prestem muita atenção:

Só se presencia a natividade, escutando o coração.

 

É possível presenciar a natividade, mesmo estando só:

Num sorriso de uma criança, num abraço de avó.

No olho d’Água que nasce na terra rachada, pelo sol;

Num pássaro que corta os céus, num vôo rasante, ao arrebol;

 

No coração solidário, compadecido do infortúnio alheio;

No nascimento do primogênito, do caçula e do filho do meio;

Nas ondas que conduzem a jangada do pescador,

Na gratidão do estudante, pelas lições do professor…

 

É possível ver Jesus nos cientistas buscando curas;

É possível ver Jesus em quem luta contra torturas.

É possível ter Jesus dentro do nosso coração.

Mas é preciso ser paz, justiça, caridade e perdão.

 

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