Tamylka Viana

A noite em que a porta bateu

Diante de uma situação de medo, nosso corpo decodifica o que está acontecendo em frações de segundos. Dotades de uma inteligência física, fazemos uma interpretação real do ocorrido por meio dos nossos instintos. Porém, até encararmos o problema neste espaço-tempo, somos levades a duvidar do que sentimos e nossa mente passa a criar inúmeras possibilidades, muitas vezes negativas e catastróficas, que alimentam o medo e nos fazem criar fantasias aterrorizantes.

 

A noite em que a porta bateu

Noite. Chuva. Vento. Muito vento.  As luzes da casa já estão apagadas. As portas fechadas. Os cadeados trancados. Somos apenas minha avó e eu.

Som de porta pesada batendo. Ágata, a gata, arregala o olhar e ergue as orelhas. Levanto da cama para entender se o que ouço é real ou imaginação. Silêncio. Espero para ouvir o barulho outra vez. Nada. Apenas o som do ar-condicionado ligado no quarto. Desço as escadas. Vou ao quarto da minha avó que já está deitada há uma hora, aproximadamente. Abro a porta. A luz de seu quarto está acesa. Ela está acorda. Dizia que havia batido a porta de seu quarto para conseguir fechar. Seu abajur estava desligado. Ligo o abajur à tomada e apago a luz do quarto. Subo a escada. Encontro a TV desligada. Como? Questiono-me. Pensei que tivesse dado apenas um pause na série que assistia. Volto a deitar.

O barulho. Batidas de porta. Agora mais forte. Penso: É a porta da cozinha! Desço a escada. Novamente volto ao quarto da minha avó. Comento com ela, a fim de ganhar coragem: A porta que fica entre a garagem e a cozinha está batendo, tenho que abrir toda a casa para ir fechá-la. Pego as chaves, acendo todas as luzes externas da casa como quem manda um recado: tem gente acordada aqui, e eu estou indo aí – como se eu tomasse mais uma dose de coragem.

Abro os três cadeados. A chuva de vento molha toda varanda. O vento canta. Canta não, o vento uiva. Parece cena de filme de terror. Aumenta minha tensão. Isso não é hora para pensar em filme de terror. Nesse momento mil medos começam a rondar a minha mente. Indago-me. Eu havia fechado esta porta antes. Será que alguém abriu e está me esperando na garagem? E se me deparo com um espírito? A garagem está repleta de coisas antigas das casas onde moramos. Tudo veio para cá. Um amontoado de coisas. Memórias. De longe vejo a porta que bate entreaberta. Checo os cachorros. Sim são dois, estão dormindo tranquilos debaixo da lavanderia. Fecho a porta que batia. Tranco o ferrolho. Certifico-me que tranquei. Faço o caminho de volta debaixo de chuva forte. Penso: será que alguém entrou aqui enquanto eu fui fechar a porta que batia?

Entro em casa. Tranco os três cadeados. Fecho a porta da sala. Subo a escada e volto para a cama. Era só uma porta que batia. Respiro aliviada. Reflito sobre o que acabara de acontecer e me ponho a escrever. Noite. Chuva. Vento. Muito vento.  As luzes da casa já estão apagadas. As portas fechadas. Os cadeados trancados.

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